terça-feira, 4 de maio de 2010

A "Veja" contra a lei de obrigatoriedade de Filosofia e Sociologia no Ensino Médio.

A mídia burguesa e a educação brasileira
A revista Veja publicou uma matéria em seu site no dia 31/03/2010 (http://veja.abril.com.br/310310/ideologia-cartilha-p-116.shtml) fazendo duras críticas ao ensino de Sociologia e Filosofia no ensino médio, que a partir deste ano é obrigatório em todos os anos do ensino médio. A crítica principal se direciona aos currículos elaborados pelas secretarias estaduais de educação que segundo a revista, seriam “um festival de conceitos simplificados e de velhos chavões de esquerda”, citando vários estados brasileiros. Seus “profundos” comentários se direcionam também aos cursos de Ciências Sociais, que segundo o autor “se ancoram no ideário marxista”. É citado também uma fala do diretor de um colégio particular de São Paulo: “Está sendo duríssimo achar professores dessas áreas que sejam desprovidos da visão ideológica". Para concluir a o artigo, o autor reproduz o pensamento de um funcionário da própria revista que diz “Os países mais desenvolvidos já entenderam há muito tempo que é absolutamente irreal esperar que todos os estudantes de ensino médio alcancem a complexidade mínima dos temas da sociologia ou da filosofia - ainda mais num país em que os alunos acumulam tantas deficiências básicas, como o Brasil".
            Primeiramente, precisamos reconhecer que o papel da grande mídia no sistema capitalista jamais será neutro, pois as comunicações são os instrumentos de difusão e reprodução de ideologias (tanto no sentido comum, como no sentido marxista), que tem por função representar mentalmente as relações sociais, inclusive a educação.
 É sabido que o setor de comunicação no Brasil é dominado por pouquíssimos grupos, que conseguem reproduzir o seu poder por décadas. Entre os principais estão as organizações Globo e o Grupo Abril, que só para se ter uma idéia, é dono dos seguintes meios de comunicação: Editora Abril (Revistas Veja, Quatro Rodas, Placar, Playboy, Vip, Claudia, Caras, etc), Editora Ática e Scipione, MTV Brasil, TVA, etc. Além destas o grupo já foi dono da Directv, ESPN, HBO Brasil, BOL, UOL, etc. A família Civita, proprietária do grupo associou-se em 2006 à Naspers, grupo de mídia Sul-Africano, estreitamente ligado ao Partido Nacional, de extrema-direita, que legalizou o regime do Aparthied naquele país no pós 2º GM. Então não estamos falando de uma revista, mas da aristocracia que controla a mídia no Brasil, que reproduz a ideologia dominante e contribui para a preservação o staus quo.
            O ilustre artigo considera a orientações curriculares das Secretarias de Educação esquerdistas. Porque obviamente, para a revista Veja os governos estaduais aliados do governo federal são de esquerda, como o nosso querido Sérgio Cabral (um revolucionário!), então as suas Secretarias tentariam difundir o marxismo, assim como os cursos de Ciências Sociais e Filosofia. Basta analisar as propostas de orientação curricular do Estado deste ano para Sociologia e Filosofia, que fica evidente que o conteúdo a ser aplicado em sala de aula não tem nada a ver com doutrinamento esquerdista.
            O autor quer passar a idéia de que os professores de Sociologia e Filosofia são “ideológicos” em frase reproduzida no texto e no próprio título, Ideologia na cartilha, o que demonstra uma profunda ignorância sobre o conceito e sobre o debate sobre a objetividade da ciência. Eu pergunto ao autor: Onde não há ideologia? Até na matemática, na física ou na Educação Física existe ideologia. Quando aprendemos uma determinada fórmula matemática ou uma determinada regra esportiva, poderemos até nos esquecer dela depois, mas a organização mental que foi feita para que aprendamos mesmo que superficialmente estes conceitos ficam em nossa mente. A ciência é ideológica! Todas as nossas idéias são!
            A Sociologia e a Filosofia por lidarem com valores sociais, com a nossa cultura, com a nossa visão de mundo estão um pouco mais vulneráveis à interferência da subjetividade individual, e até Max Weber, ferrenho crítico do marxismo, não cria na possibilidade da imparcialidade total no estudo da sociologia, pois a própria escolha do objeto de estudo já é subjetiva (o termo ideológico não caiu bem no artigo do autor- isso sim é vulgar) mas dizia que ela deve ser buscada.
            Isso não quer dizer de forma alguma que os professores de Sociologia e Filosofia sejam doutrinadores marxistas, até porque a maioria deles não são sequer marxistas. Quem vive ou conhece o mundo acadêmico e profissional associado às disciplinas de humanas, sabe que o pensamento de esquerda entre os intelectuais brasileiros não está assim tão em “moda”. Hoje nas Universidades o que vigora é um grande refluxo da difusão dos pensamentos de esquerda. Não é coincidência que nas duas disciplinas exista uma tendência ao esvaziamento de matérias e pesquisas que discutam Marx e autores marxistas.
O Nosso papel é ajudar os estudantes a desenvolverem o senso crítico e conhecer a realidade social do mundo onde vivem de forma a compreender que eles são atores sociais, um cidadão e não um mero espectador; que eles têm poder de intervir no mundo onde vive e para isso precisam conhecer a realidade social. Os conhecimentos de Filosofia e Sociologia são imprescindíveis para o exercício da cidadania. A matemática e todas as outras disciplinas são importantes sim. Uma disciplina não é concorrente da outra, são complementares de um único ser humano. E não é “irreal”, que os nossos estudantes não são capazes de “alcançarem uma complexidade mínima dos temas da sociologia ou da filosofia” como reproduziu o autor. Se a educação que oferecemos à população não é melhor, é devido ao descaso dos governos, seguindo a cartilha educacional dominante, de desmonte da educação pública.
            Segundo o autor deveríamos seguir o modelo de “países mais desenvolvidos”. Mas quais seriam estes? Qual é a concepção de educação que está sendo difundida? Seria aquela mecanicista, reprodutivista, que conhecemos bem? Tenho certeza que não é uma educação libertadora como a propagada por Paulo Freire, um verdadeiro educador.
 Ideológico é o artigo da Veja e as publicações do Grupo Abril, que reproduz trechos das orientações curriculares das Secretarias Estaduais de Educação com comentários embaixo, como se os leitores não fossem capazes de pensar por si mesmos. Cadê a liberdade de pensamento? Antes que pensemos, e Veja já nos diz o que devemos achar. É como um programa humorístico que coloca risadas no fundo para nos avisar quando devemos rir...
             Para concluir eu queria deixar uma questão: porquê o ensino de Sociologia e Filosofia, que só começou agora e ainda está em processo de consolidação, está incomodando tanto a aristocracia midiática brasileira?



Autores: 


Vitor Hugo Fernandes de Souza (Professor de Sociologia do Estado do Rio de Janeiro) e DiegoFelipe de Souza Queiroz (Professor de Filosofia do Estado do Rio de Janeiro).

Nascimento da Filosofia.

Milagre Grego?

Consideramos ao estudar filosofia, que esta disciplina nasceu na grécia antiga. Mais precisamente nas colônias gregas na Ásia menor, entre os séculos VI e VII a.C.
É importante comentar que dizer que a filosofia tem origem na Grécia antiga, não significa negar que outras civilizações contemporâneas e mais antigas que a Grécia tenham produzido sistemas de saberes elaborados. Cada vez mais, através de descobertas históricas e arqueológicas é ratificado que na África e no oriente diversas culturas já haviam desenvolvido pensamentos complexos. E também cada vez mais aceito a idéia de que os antigos gregos tiveram contato com culturas e pensamentos do oriente. Desta forma, que a filosofia não é fruto de um "milagre grego", como alguns historiadores defendiam no passado.A filosofia nasceu na Grécia, mas surgiu devido a condições históricas, dentre as quais o contato dos gregos com outras culturas.
A filosofia é de origem grega, mas dizer isso significa apontar apenas que esta disciplina, tal como a entendemos no ocidente nasceu na Grécia antiga e não mais que a filosofia tenha sido criada "do nada" por gregos isolados do mundo.

Condições histórica para o surgimento da Filosofia:

Muitos acontecimentos históricos possibilitaram o surgimento da filosofia na Grécia Antiga. De eles:
1. As viagens marítimas: que produziram o desencantamento e desmistificação do mundo grego, aumentar o conhecimento do homem sobre o mundo que vivia.

2. A invenção do calendário: Que permitiu a percepção do tempo como algo natural e o controle de processos naturais antes associados a forças místicas.

3. A invenção da moeda: que aumentou o poder de abstração e de generalização do gregos.

4. O surgimento da vida urbana: que fez diminuir o prestigio e poder dos aristocratas ligados a terra que tinham os Mito como base de justificação cultural de seu poder político, e o surgimento de uma classe de comerciantes que para contrapor o poder da aristocracia dos detentores de terra procurava prestígio patrocinando novos tipos de pensamento.

 5. A invenção da política: O surgimento da ideia de espaço público que faz surgir a  Palavra discurso (racional, e "democrática") que se opõem a palavra mágico-religiosa (inquestionável, restrita). Além da valorização do mundo humano e de sua capacidade de discutir e decidir de forma racional, contrapondo o caráter sagrado e irracional da palavra magico-religiosa. 

A palavra Filosofia:

A palavra filosofia é grega e composta de duas outras:

Philo (aquele que que tem sentimento amigável, pois deriva de Philia, que significa amizade e amor fraterno)

Sophía (que quer dizer sabedoria)
Neste contexto podemos entender:

Filosofia =  (Amor a Sabedoria, ou ainda Respeito ou amizade pelo saber)

Filósofo =  (Aquele que Ama o saber, ou ainda aquele que tem amizade ou respeito pelo saber)

Como uma metáfora para falar do caráter da Filosofia, Pitágoras dizia que existiam três tipos de homens entre aqueles que iam assistir os jogos olímpicos:

1. Os que iam aos eventos para vender, para satisfazer sua cobiça sem se interessar pelo torneio em si.

2. Os que iam aos eventos para competir, e aumentar o próprio prestígio.

3. Os que iam para assistir os jogos para avaliar o desempenho e julgar o valor dos que ali se apresentava.

Para Pitágoras esse terceiro tipo de pessoa é como o filósofo, pois: Ele não é movido por interesses financeiros (também não considera que o saber seja uma propriedade sua que possa ser vendida), não é movido pelo desejo de competir (não é um atleta intelectual que procura fama e vencer aos adversários). Ou seja o filósofo é movido pelo desejo de observar, contemplar, julgar e avaliar as coisas, as ações, os acontecimentos e a vida. O Filósofo é movido pelo desejo de saber.