sábado, 16 de fevereiro de 2019

Mais uma morte no Mercado: a ética neoliberal que coloca o lucro a cima da vida.

Mais uma vez acompanhamos nos noticiários uma morte causada pela ação violenta de um segurança de uma grande empresa. Desta vez o caso aconteceu em um supermercado de um bairro nobre da cidade do Rio de Janeiro, um jovem negro foi asfixiado na frente de sua mãe até falecer. A repercussão do caso esta sendo grande, pois a agressão tornou-se pública por meio do registro de câmeras de celulares de pessoas que estavam presentes no supermercado e das imagens da câmera de segurança do próprio estabelecimento. Recentemente um caso muito parecido já tinha comovido pessoas por todo país, na ocasião um cão foi assassinado a golpes de barra de ferro por um segurança de uma outra rede de supermercado. Muitos outros casos similares foram registrados recentemente, como por exemplo o do menino que foi assassinado por um segurança em uma rede de fast food, e dos diversos casos de agressão a músicos por seguranças do metro-rio.

Todas estas agressões despertaram debates polarizados na sociedade, por mais absurdas que tenham sido. De um lado pessoas e movimentos sociais denunciaram a ilegalidade e imoralidade dos atos de violência, de outro pessoas e políticos disseminaram discursos para legitimar a ação dos agressores. Um debate político que se tornou efervescente dado ao clima de medo devido a insegurança nas grandes cidades e ao fortalecimento do poder político de setores conservadores no país. É notório que o medo das pessoas tem sido usado politicamente para legitimar diversas ações belicistas no que diz respeito ao controle social. Vide as políticas de segurança de muitos estados, que dão "carta branca" para a ação violenta das forças policiais no "combate a criminalidade" nas periferias.

Os debates envolvendo a ação violenta da segurança privada também são éticos, pois envolve uma "guerra" entre valores. Se recorrermos ao pensamento do filósofo argentino Enrique Dussel, conhecido pelo seu engajamento no desenvolvimento de uma filosofia latino americana, podemos identificar interessantes elementos dentro deste embate entre valores. Para o pensador a política neoliberal impregnou nossas sociedades de valores extremamente individualistas, a moral vigente se fundamentaria a partir do mercado. Para os ideólogos do livre mercado, se o mercado vai bem tudo vai bem. O lucro é entendido como "bem maior" e por isso colocado a cima de qualquer outro valor, mesmo o da vida.

Uma frase celebre do empresário Ray Krock (fundador do McDonald) ilustra bem "o vale tudo" moral em nome do lucro:
"O que se deve fazer quando um concorrente está se afogando? pegar uma mangueira e jogar água em sua boca".
Por mais cruel e desconfortável que esta afirmação possa parecer, para o pensamento moral dominante ela tem sentido. O lucro é o bem maior, assim como a propriedade privada. Para a "ética neoliberal" pouco importa as ações catastróficas de uma empresa responsável por desastres ambientais de proporções bíblicas. Se esta empresa gera lucros ela é mais importante do que as cidades que destruiu e que todas as vidas que veio ceifar. Não é incoerente que políticos poderosos tenham se colocado contra a responsabilização da Vale, para estes a empresa tem de ser defendida a "unhas e dentes" porque gera lucro. Se o lucro e a propriedade são os valores fundamentais, seria legitimo a ação do segurança da rede de fast food Habib’s, já que a criança assassinada no episódio estaria "perturbando" os consumidores do local. E o cão assassinado no Carrefour ? Para a mesma lógica os animais sempre foram entendidos como produto, seu sofrimento pouco importa. Vide toda violência contra a vida animal realizada pelas indústrias da carne e de cosméticos. E o jovem morto por um "mata leão' no supermercado? Muitos vão defender a ação do segurança utilizando-se de informações falsas viralizadas por meio de fakenews, distorcendo o acontecimento por meio de retóricas tortas e etc. A sociedade fundamentada nos valores neoliberais precisa defender o assassino deste jovem. A ação covarde deste segurança é fundamentada numa política de "carta branca" que esta mesma sociedade concedeu as defensores da ordem e da propriedade privada.

Para alimentar a política de medo este assassinato tem que ser legitimado, para propagar a ética neoliberal  este assassinato tem que ser legitimado, para manter a cruzada conservadora do cidadão de bem contra o mal este assassinato tem que ser legitimado. No entanto, todos estes casos também demonstram que precisamos de "outra sociedade". Precisamos transcender o medo em direção a uma nova política e buscar uma reorientação ética. O valor da vida não pode estar colocado a baixo do lucro e da propriedade. Cidades não podem ser destruídas pelas ações gananciosas de mineradoras, animais não devem ser reduzidos a produtos e serem submetidos a sofrimento extremo, seguranças e policiais não devem ter "carta branca" para tirar a vida das pessoas.



Bibliografia:
Dussel, enrique. filosofia da libertação: Crítica à ideologia da exclusão. São Paulo: Paulus, 1995.

Antonio de Castro Alves, Diego Felipe de Souza Queiroz, João André Fernandes da Silva, Luís Cesar Fernandes de Oliveira, Renato Nogueira. Estudos de Filosofia no ensino Médio. Rio de Janeiro: Imperial Novo Miléni. 2016.

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