quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Mito e ideologia: Reescrevendo a História em "call of duty black ops 2"

O jogo Call of Duty Black ops II promete apresentar um lado obscuro do exército norte americano, inserindo os jogadores em dois momentos históricos diferenciados. O primeiro momento se dá em um passado histórico recente de batalhas na Africa, América Central e Oriente Médio. Um segundo momento, em um futuro fictício próximo onde é eminente uma guerra global cataclísmica.

No entanto, desde o início do jogo fica claro que este não foge em nada ao clichê maniqueístas de jogos de guerras produzidos pela indústria estadunidense do entretenimento. Ou seja, atuação em combates contra inimigos malignos a serem enfrentados pelo bem intencionado exército americano. Exército que em determinados momentos pode até se equivocar, mas que sempre vem a representar a força do bem, da democracia e liberdade que com coragem única enfrenta as ameaças globais que poderiam levar o mundo ao caos e ao autoritarismo.

O inimigo principal do jogo desta vez é Raul Menendez, um personagem fictício que mistura quase todas as encarnações do "inimigo americano". Um psicótico, fanático, terrorista-comunista, guerrilheiro sul-americano que é amigo dos Árabes e da China. Sua motivação pessoal é vingar sua irmã (Josefina) ferida em meio a um incêndio criminoso realizado por empresários norte americanos na Nicarágua, e posteriormente assassinada devido a acontecimentos envolvendo a presença do exército norte americano na América Latina. É claro que ao longo do jogo a responsabilidade dos americanos pelo acontecimento envolvendo Josefina é dissolvida na trama como fruto de opções equivocadas de comando e ações individuais de soldados. Pois a todo momento é importante afirmar a legitimidade das ações dos norte americanos nas lutas na America Latina assim como em outras batalhas controversas pelo globo.


Menendez em sua vingança pessoal arrasta propositalmente os personagens principais do jogo a diversas lutas pelo globo. Começando pela  Angola, onde o exército norte americano ajudou a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) liderada por Savimbi a combater o as forças da MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) apoiadas pelo bloco comunista durante e apos o processo de independência. A participação americana é demostrada como uma troca de favores entre Savimbi e o governo dos Estados Unidos. Neste cenário uma cena marcante é a de uma criança de uma família local sendo treinada de maneira cruel por soldados cubanos para adquirir ódio, perder seus sentimentos e virar um soldado atuante. Claramente uma tentativa de mostrar o quanto o "bloco comunista" que agia na Africa era cruel, e desta forma justificar ou pelo menos atenuar a participação americana no conflito. O que contrasta bastante com os reais acontecimentos no país. Cuba até os dias de hoje ajuda Angola em saúde e educação e a sua atuação no conflito sempre foi solidária e importante para a independência e desenvolvimento daquele país.

Posteriormente os heróis são arrastados por Menendez para acontecimentos no Oriente Médio, mas precisamente na luta dos Talibans contra a União soviética. Nesta parte do jogo a trama tenta apresentar como os soldados americanos "bem intencionados" apoiaram os Talibans contra um inimigo maior (o comunismo global) e posteriormente foram traídos por estes. Uma explicação absurda para justificar o apoio do governo americano a este grupo, que ainda hoje é apontado como um grande inimigo ocidental. Os terroristas de Bin Laden, autores do 11 de setembro que foram enfrentados em guerra em 2001 e que ainda permanecem ativo.

Por fim, os personagens são arrastados mais uma vez para a América Latrina, desta vez para ajudar os Contras e outros grupos contra revolucionários. Apoio que é "mostrado" como um acordo político realizado para que os americanos pudessem capturar o terrosita fictício Menendez. Também o escandaloso envolvimento dos Estados Unidos com Manuel Noriega é demostrada como uma aliança feita a contra gosto, necessaria por conta da caçada a Menendez e não como um fato histórico relacionado ao envolvimento sistemático dos Estados Unidos com ditaduras sanguinárias e governos corruptos para bancar as lutas contra movimentos guerrilheiros e governos socialistas/comunistas na região. Todos acontecimentos ruins relacionados a este momento histórico apresentados como uma série de equívocos de liderança ou de ações pessoais.  Mais uma tentativa de colocar a responsabilidade concretas do exercito americano em conflitos absurdos em eventos fictícios, contingentes e de natureza pessoal.  

Na parte que se refere ao futuro, o jogo trabalha com a paranoia americana de uma guerra global envolvendo China, Irã, Rússia e os Árabes. É claro que no final do jogo, tudo acaba bem. Os americanos saem vitoriosos e o vingativo Menedez acaba por se afogar em tristeza, se arrepender por suas ações o que lhe leva ao suicídio.

Podemos entender oeste jogo de ótimos gráficos e jogabilidade excelente  como uma tentativa de reescrever a história através de um "mito eletrônico". Ou seja, de uma narração fictícia e virtual  de acontecimentos históricos voltada para explica-los de maneira comoda para o poder constituído da potência norte americana. Uma tentativa clara de colocar a culpa de crimes e atos intoleráveis praticados pelo exército americano em uma figura puramente virtual que incorpora todos os esteriótipos que constituem o "inimigo americano". Um jogo pedagógico e ideológico feito para conquistar corações e mentes para uma visão distorcida da história. Uma mudança de estratégia sobre a leitura destes mesmos acontecimentos. O que antes era encoberto pela "narrativa oficial" do poder agora é rescrito de maneira comoda. Uma grande jogada da indústria do entretenimento para propagar uma determinada visão de mundo a jogadores do mundo inteiro.

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