segunda-feira, 11 de julho de 2016

Em política o virtual é real.

Schuiten
Não é incomum nos depararmos com pessoas que batem no peito com orgulho para afirmar que por opção não possui perfil no Facebook ou conta no WhatsApp. Sobre tudo dentre os militantes políticos mais antigos e dentro dos grupos mais ortodoxo é uma máxima. Dentre os argumentos são levantados as temáticas da segurança, dispersão e estimulo ao sectarismo. Criticas que na maioria das vezes se resumem ao entendimento superficial e reducionista sobre as recentes ferramentas de comunicação.

É claro que a internet e as ferramentas tecnológicas possuem um lado negativo, sobretudo quando mau utilizada. Para se desparafusar um parafuso utilizamos a ferramenta chave de fenda, compreendendo que o martelo não tem por fim este objetivo. Da mesma forma não devemos utilizar o Facebook ou WhatsApp para tecer determinados comentários e trocar determinadas informações. Em tempos de criminalização dos movimentos sociais determinadas informações divulgadas virtualmente podem sim serem utilizadas contra o movimento. Por isso os militantes devem refletir bem sobre o que publicar e debater nas redes. É evidente que a internet pode facilitar a dispersão devido a capacidade de produzir "infinita" fonte informação, no entanto, o excesso de informação sempre será melhor que a escassez. Cabe aos militantes e organizações saber trabalhar com o alcance de suas publicações, e render bem o que se produziu em termos políticos pedagógicos. 

Diego Felipe
Derrida retoma Platão para discutir as contribuições da escrita para produção de conhecimento, caracterizando a mesma como um pharmakon. Ambígua tal como um remédio (para os gregos) que possui a capacidade de curar, mas também de "enfraquecer". E relação ao conhecimento ela pode salvar e ao mesmo tempo fazer perder, contudo é fundamental a produção de conhecimento.  A internet também atua como um pharmakon, por muitos motivos: 1- ela amplia o acesso a produção de informação, ao mesmo tempo que pode provocar superfacilidade 2- ela garante maior acesso a informação, ao mesmo tempo que pode facilitar a dispersão 3- ela agiliza a comunicação, ao mesmo tempo que pode fragiliza-la. Nos dias de hoje contudo, é fundamental.

No que diz respeito a política, as novas tecnologias de informação foram determinantes em muitos acontecimentos recentes tais como: 15M na Espanha, occupy wall street (e demais ocupes), primavera árabe e jornadas de junho. Independente do resultado político de todas estas movimentações, é inegável que se trataram de potentes manifestações políticas. Podemos ampliar este debate também para a greve da educação no Rio de Janeiro de 2016 que desde seu início conta com uma participação maciça e participação intensa do movimento estudantil. Tal participação tem grande relação com a utilização as novas tecnologias de comunicação. O WhatsApp por exemplo, foi fundamental para organizar as ocupações estudantis (que chegaram a mais de 80 colégios no Estado do Rio de Janeiro) e a adesão dos professores unidos por grupos de professores por escola. Da mesma forma o Facebook (por meio de páginas de Canais alternativos e perfis pessoais) tem conseguido contrapor a campanha de sabotagem da luta levada pela grande mídia empresarial financiada pelo governo. 

Schuiten
Desta forma a virtualidade é uma camada a mais da política, que cada dia mais ganha importância. Furta-se de participar das redes sociais e de instalar aplicativos de comunicação instantânea não vai reverter esta tendência, mas sim provocar seu isolamento político desta "nova camada da realidade". Querendo ou não muito do que se trata a organização e mobilização se dará nesta esfera, queira você queira ou não. Também precisamos entender de uma vez por todas que é possível lidar com estas tecnologias de forma diversa, inclusive evitando seus "malefícios". Quando afirmamos que "em política o virtual é real" queremos dizer que a política hoje passa inevitavelmente pelo virtual, e que a auto exclusão desta "camada da realidade" só renderá em sectarismo e incomunicabilidade.  Que os movimentos sociais e políticos saibam administrar este pharmakon contemporâneo. 

DERRIDA, Jacques. Margens da Filosofia. Tradução de Joaquim Torres Costa e Antônio M. Magalhães. São Paulo: Papirus, 1991a. - A Farmácia de Platão. São Paulo: Iluminuras, 2005.

LÉVY, Pierre. O que é o virtual? São Paulo: Ed. 34, 1996.

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