sábado, 17 de julho de 2021

Cuba hoje: mais do que nunca é preciso não desligar a crítica.

 

   Olhares reducionistas acríticos sempre acabam por nos atrapalhar nos levando a becos sem saída.
É evidente que qualquer pessoa minimamente progressista tem que se posicionar contrários ao embargo e as ações imperialistas contra Cuba. E evidente também que quem é de esquerda precisa defender as conquistas sociais da revolução socialista na ilha. Mas é importante frisar que para isso não podemos desligar nossa capacidade crítica. Quando fazemos isso vamos na contramão destes propósitos.
No fim de semana que se passou tivemos fortes mobilizações na ilha, que emergiram de forma espontânea apesar de todo sistema de controle e coerção colocados pelo governo cubano. Um movimento de composição múltipla e caráter difuso que levantou diversas pautas legitimas, tais como: melhorias das condições sociais (mais acesso a alimentos, eletricidade, vacinação e etc) e aumento de liberdades individuais (liberdade de expressão, de organização e etc). Como resposta as passeatas que ocorreram em diversas cidades do país o governo Cubano partiu para a repressão (utilizando-se para isso da policia, exército e "milícias") e censura (cortando a internet e impedindo a livre circulação de informação). O resultado foi a prisão de centenas de pessoas e um processo de perseguição aos que participaram dos protestos que ainda está em curso.
    Neste fim de semana estamos vendo a maioria da esquerda brasileira "emocionada" com a reação propagandística do governo que organizou um grande ato comício em sua defesa. Sei que as reflexões sobre Cuba em nosso país costumam ser conduzidas de forma acrítica em cima de uma visão romantizada da ilha, e que o neostalinismo está na moda. Mas fica aqui o apelo: quem tem a intenção de pensar Cuba hoje sem reducionismos, romantizações e demonizações precisa reforçar o olhar crítico e não calar a razão. Quando governos organizam atos "populares" em defesa de si mesmos através da mobilização de toda a estrutura do Estado temos como resultado algo patético. Inclusive costuma ser um sinal que as coisas não estão nada boas para o poder constituído. Já vimos este tipo de mobilização em outros países, inclusive aqui no Brasil tivemos coisas parecidas. Me lembro por exemplo das passeatas organizadas pelo PMDB no estado do RJ em defesa dos royalties do petróleo. Centenas de ônibus fretados com funcionários de cargo comissionados mobilizados para encher as ruas para defender algo que não fazia muito sentido para a maioria da população (que estava fora do debate concreto desta pauta).
    Não precisamos insistir nesta ideia de que todos estamos refém de uma prova de múltipla escolha, sendo obrigado a escolher entre apoiar o embargo ou o atual governo cubano. Sempre podemos mais do que isso.

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